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A mulher que tenta dar conta de tudo se afastou da própria natureza?

Muitas mulheres aprenderam cedo a serem fortes. Fortes para cuidar, para sustentar a família, os amigos ou parceiros, fortes para continuar, mesmo cansadas.

Com o tempo, essa força passa a ser admirada. A mulher que consegue resolver tudo, que suporta excessos, que dificilmente pede ajuda. Aquela que mantém a rotina funcionando mesmo quando algo dentro dela já começou a falhar em silêncio.

Mas existe uma pergunta importante que raramente é feita: O que acontece com uma mulher quando ela vive apenas para corresponder?


Em muitos momentos da vida, adaptar-se é necessário. Faz parte dos vínculos, das relações e da convivência. O problema começa quando a adaptação deixa de ser movimento e se transforma em modo permanente de existir.

A mulher que passa muito tempo tentando atender expectativas externas pode começar a perder o contato com aquilo que sente, deseja e necessita.

Ela continua funcionando, mas já não se reconhece da mesma forma.

Muitas vezes, esse afastamento aparece como:

  • cansaço constante

  • irritação frequente

  • sensação de vazio

  • perda de criatividade

  • dificuldade de sentir prazer

  • desconexão do próprio corpo

Nem sempre é fácil perceber esse processo. Afinal, por fora, tudo parece continuar funcionando.

Mas internamente algo vai ficando sem espaço.


Existe uma diferença entre maturidade e endurecimento.

Algumas mulheres deixam de descansar sem culpa, deixam de criar, deixam de brincar, deixam de sentir curiosidade pela própria vida. A rotina passa a ser sustentada apenas pela obrigação.

Pouco a pouco, a espontaneidade vai sendo substituída por desempenho.

E o corpo costuma perceber antes da consciência: a ansiedade aumenta, o sono muda, o excesso mental se intensifica, a sensação de presença diminui. Como se a vida estivesse sendo vivida apenas do lado de fora.


A Mulher Selvagem e o retorno à própria natureza


No livro Mulheres que Correm com os Lobos, Clarissa Pinkola Estés apresenta o arquétipo da Mulher Selvagem.

Não como uma mulher agressiva, impulsiva ou “sem limites”, mas como uma dimensão psíquica ligada à vitalidade, ao instinto, à criatividade, à intuição e à capacidade de sentir a vida com presença.

A Mulher Selvagem não desaparece completamente. Mas pode ser silenciada por anos quando uma mulher vive apenas para cumprir funções, sustentar expectativas e sobreviver ao excesso.

Muitas mulheres sentem que algo nelas “apagou”, mesmo sem conseguir nomear exatamente o quê.

Às vezes, o que está faltando não é produtividade, disciplina ou força e sim vínculo consigo mesma.


Existe uma ideia muito presente de que é preciso continuar o tempo inteiro, produzir, responder, resolver, acompanhar.

Mas alguns movimentos internos só conseguem acontecer quando há pausa, silêncio, escuta e paciência. Recinhecimento dos ciclos internos e vida-morte-renascimento, contato com o corpo, experiências criativas, tempo sem excesso de estímulo.

Escrever, dançar, caminhar, desenhar, contemplar, descansar sem culpa. Pequenos gestos que ajudam a mulher a sair do automático e voltar a perceber a si mesma.

Retornar à própria natureza significa recuperar espaços internos que foram esquecidos pela adaptação constante e isso não precisa ser feito através de irresponsabilidades ou idealização de uma vida perfeita e sem conflitos.


Muitas vezes, o esgotamento de uma mulher não vem apenas da quantidade de tarefas que ela realiza, mas da distância entre a vida que sustenta e a vida que consegue sentir.

Existe um cansaço que nasce da repetição de papéis, da necessidade constante de corresponder e da falta de espaço para existir de forma mais inteira.

Escutar isso pode ser desconfortável, mas também pode ser o começo de uma reconexão importante.


O processo terapêutico pode ajudar a mulher a compreender os lugares onde foi se afastando de si mesma ao longo da vida.

A terapia é um espaço de escuta, elaboração e reconexão. Um lugar onde não é preciso sustentar o tempo inteiro a imagem de quem dá conta de tudo.

Às vezes, o primeiro passo é começar a perceber o que, dentro de você, já não quer continuar vivendo apenas no automático. Você não precisa atravessar isso sozinha.



 
 
 

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