O que Clarissa Pinkola Estés chama de Mulher Selvagem?
- Anna Carolina Martins
- 21 de mai.
- 3 min de leitura
Muitas pessoas escutam o termo “Mulher Selvagem” e imaginam uma mulher rebelde, impulsiva ou alguém que rejeita completamente limites e vínculos.
Mas não é disso que Clarissa Pinkola Estés fala no livro Mulheres que Correm com os Lobos.
A Mulher Selvagem não é um modelo de comportamento. Não é uma personagem idealizada e nem uma exigência de liberdade constante. Ela representa uma dimensão profunda da vida psíquica feminina. Uma força instintiva ligada à criatividade, à intuição, ao desejo, ao corpo e à capacidade de sentir a vida com autenticidade.
É a parte da mulher que sabe quando algo perdeu o sentido, a parte que percebe quando está vivendo apenas para corresponder, a parte que ainda tenta respirar sob o excesso de adaptação.

A Mulher Selvagem não desaparece, mas pode ser silenciada
Segundo Clarissa Pinkola Estés, essa natureza instintiva existe em todas as mulheres. Mas, ao longo da vida, ela pode ser abafada por exigências externas, relações adoecidas, excesso de responsabilidades e pela necessidade constante de agradar.
Muitas mulheres aprendem cedo a: não incomodar, não exagerar, não sentir “demais”, não demonstrar raiva, não ocupar espaço.
Aos poucos, vão se afastando da própria espontaneidade. Continuam funcionando, mas perdem o contato com algo vivo dentro de si.
Esse afastamento pode aparecer como: sensação de vazio, exaustão emocional, desconexão do corpo, dificuldade de criar, sensação de estar vivendo no automático, perda de desejo e presença.
Nem sempre a mulher percebe imediatamente que se afastou de si mesma. Muitas vezes, ela apenas sente que existe uma tristeza difícil de explicar ou uma sensação constante de não pertencimento à própria vida.
O instinto feminino como sabedoria psíquica

Quando Clarissa fala sobre instinto, ela não está se referindo a impulsividade ou falta de reflexão.
O instinto, nesse contexto, é uma forma profunda de percepção.
É aquilo que faz uma mulher sentir quando uma relação a enfraquece. Quando um ambiente a adoece. Quando sua vida se tornou excessivamente rígida. Quando existe algo nela pedindo mudança, mesmo que ainda não existam palavras claras para isso.
A Mulher Selvagem é essa capacidade de sentir a verdade do próprio corpo e da própria alma antes mesmo que tudo esteja organizado racionalmente, mas muitas mulheres desaprendem a confiar nisso. Passam a validar apenas aquilo que é produtivo, lógico, aceitável ou esperado. E, com o tempo, começam a duvidar da própria percepção.
Recuperar a Mulher Selvagem não é abandonar a vida
Existe um equívoco comum de imaginar que reconectar-se consigo mesma exige mudar radicalmente de vida, abandonar responsabilidades ou tornar-se alguém completamente diferente.
Na maioria das vezes, esse retorno começa de forma mais silenciosa.
Começa quando uma mulher volta a escutar o próprio corpo, reconhecer seus limites, criar espaços de pausa, permitir-se sentir, recuperar experiências criativas e sustentar desejos que foram silenciados. A Mulher Selvagem pede presença.
Clarissa Pinkola Estés fala sobre a importância dos ciclos, da renovação e da capacidade psíquica de morrer e renascer ao longo da vida, mas muitas mulheres vivem tentando permanecer sempre iguais: fortes, disponíveis, produtivas e emocionalmente sustentáveis o tempo inteiro.
Esse endurecimento produz sofrimento.
A vida psíquica precisa de movimento. Precisa de descanso, recolhimento, criatividade, transformação. Precisa de espaços onde a mulher possa existir para além das funções que sustenta.
Quando isso não acontece, a vitalidade começa a desaparecer lentamente.
O universo de Mulheres que Correm com os Lobos atravessa temas profundamente ligados à experiência feminina: instinto, criatividade, exaustão, desejo, ciclos, pertencimento e reconexão consigo mesma.
E talvez uma das maiores potências desse livro esteja justamente na forma como ele toca partes da mulher que, muitas vezes, ficaram esquecidas pela pressa, pelas exigências e pelo excesso de adaptação.
Nos próximos meses, aprofundarei algumas dessas reflexões por aqui. E, no segundo semestre, iniciarei uma nova edição do grupo de leitura de Mulheres que Correm com os Lobos, um espaço de troca, escuta e elaboração coletiva sobre os símbolos, histórias e questões que o livro desperta.
Um espaço para mulheres que desejam não apenas ler o livro, mas atravessá-lo de forma mais sensível, profunda e acompanhada.
Em breve compartilharei mais informações sobre o grupo.
Talvez esse também seja um convite para começar, aos poucos, a voltar para si mesma.



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