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O que se perde quando você aprende a ser “boa” demais

Ser uma mulher “boa” costuma ser elogiado desde cedo.

A menina educada. A filha compreensiva. A parceira que entende. A profissional que resolve. A amiga disponível.

Ser boa é ser gentil, responsável, prestativa, equilibrada. E, à primeira vista, não há nada de errado nisso.

Mas poucas vezes se pergunta:o que essa mulher precisou calar para ser considerada boa?


Muitas mulheres aprendem cedo que manter o amor, a aceitação e a segurança depende de não causar conflito. Depende de se adaptar. Depende de perceber o que o outro precisa, às vezes antes mesmo de perceber o que elas próprias sentem.

Aos poucos, dizer “não” vira culpa. Expressar raiva vira exagero. Colocar limites vira medo de perder vínculos.

Ser boa deixa de ser uma escolha ética e passa a ser uma estratégia psíquica de sobrevivência.

E toda estratégia tem um custo.


Na clínica, é comum ouvir mulheres que dizem:

“Eu entendo o lado dele.”

“Eu sei que minha mãe fez o que pôde.”

“Eu não quero parecer ingrata.”

Elas entendem tudo. Elaboram tudo. Justificam tudo.

Mas, no meio dessa compreensão infinita, algo vai ficando de fora: o próprio sentimento.

A raiva que não encontra lugar. A frustração que precisa ser racionalizada. O desejo que é constantemente adiado.

Ser boa demais pode significar tornar-se especialista em sustentar o outro, enquanto se abandona internamente.


O desejo não nasce onde há apenas adaptação. Ele precisa de conflito, de diferença, de posicionamento.

Quando uma mulher vive para corresponder, algo se empobrece por dentro. Ela pode ter reconhecimento, estabilidade e até relações aparentemente saudáveis, mas sente um vazio difícil de nomear.

Esse vazio, muitas vezes, não é falta de amor. É falta de si.

Porque ser sempre “boa” pode significar nunca ter aprendido a perguntar: O que eu quero? O que me incomoda? O que eu não aceito mais?


Não se trata de abandonar a gentileza ou de tornar-se indiferente. Trata-se de ampliar a própria existência.

Ser inteira implica reconhecer que há ambivalência, há raiva, há limites, há desejo. Implica aceitar que desagradar, às vezes, faz parte de sustentar a própria verdade.

A mulher que começa a se escutar pode se sentir estranha no início. Pode temer parecer egoísta. Pode temer perder lugares já conhecidos.

Mas o que se ganha é precioso: uma vida menos pautada pela aprovação e mais orientada pelo sentido.


Talvez você não seja “sensível demais”. Nem “difícil”. Nem “exigente”.

Talvez você tenha aprendido cedo demais que precisava ser boa para ser amada.

E talvez agora esteja começando a perceber que amor não deveria exigir apagamento.

O processo de autoconhecimento passa por reconhecer esses lugares internos onde você se adaptou para caber e perguntar se ainda quer permanecer neles.

Porque, no fim, a questão não é deixar de ser boa.

É não deixar de ser você.


Reconhecer o quanto você se adaptou para caber pode ser desconfortável. Pode trazer culpa, medo e até a sensação de estar sendo egoísta por simplesmente querer existir com mais verdade.

Mas esse movimento não é egoísmo. É amadurecimento psíquico.

A terapia é um espaço onde você não precisa sustentar papéis, justificar sentimentos ou ser compreensiva o tempo inteiro. É um lugar onde sua raiva pode aparecer, seu desejo pode ser escutado e seus limites podem ser elaborados com cuidado.

Se você percebe que tem sido “boa” demais e isso tem custado sua espontaneidade, sua energia ou sua verdade, talvez seja o momento de começar a se escutar com mais profundidade.

Você não precisa fazer isso sozinha.

Se fizer sentido para você, a terapia pode ser esse espaço de elaboração e reconexão.






 
 
 

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